No reinado dos santos populares

João levantou-se após uma noite de pesadelos. Comera muito tarde no dia anterior, foi dormir com a barriga ainda cheia e teve sonhos terríveis. Daqueles sonhos que o corpo quer correr e não consegue sair do lugar. Acordou no dia seguinte com a sensação de estar mais gordo do que sempre estivera. Com um gesto muito rápido, como um relâmpago, ajoelhou-se e fez promessa pra São Benedito. Ainda era quaresma.

Jurou pro seu santo padroeiro que ia jejuar durante todo o mês que se iniciava: alface e água. Somente. Queria ser sincero e por isso escolheu mastigar o que sempre achara não ter gosto algum. João nem fez figa, era promessa feita sem defesa. E com São Benedito não se brinca, ainda mais na quaresma, longe das festas juninas, antes da ressurreição, antes do sábado da aleluia. Brincar nem pensar.

Nosso herói iria comer apenas folhas de alface durante um mês. Alface da lisa e da crespa. Da verde clara e da verde escura. Da roça e da Indonésia. Água da bica, do poço, do pote e da talha. Nem imagino o conteúdo dos sonhos pra João estar disposto a tamanho sacrifício. Tenho uma idéia vaga sobre o peso dos pesadelos. Pro nosso herói comilão jurar diante do altar de São Benedito tamanha façanha, o terror deve ter sido dos inimagináveis.  Dona Zica não compreendeu, ficou preocupada com seu primogênito. Amélia aproveitou e tirou folga: o fogão não iria necessitar tanto de sua presença. Somente Rosinha compreendeu. Abraçou seu querido João e suspirou aliviada, olhando pra folhinha pregada na parede: o mês de abril começava e era apenas dia primeiro. Na rua podia-se ouvir o canto da criançada: que mentira, que lorota boa, que mentira, que lorota boa. 

 

Consuelo de Paula, 01/04/2009



Escrito por Consuelo de Paula às 16h39
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