Maio

Hoje quero deixar aqui neste sítio
um texto que escrevi para o NB Jornal.
Recebam meu forte abraço e mil beijos,
Consuelo.

Zélia vestia-se de anjo a cada mês de maio durante certos anos de sua infância. Roupa branca acetinada, fitas, rendas e bordados perolados.

As asas pareciam ser de verdade. Ela acreditava nisso. Louvava a Maria. Luvas brancas segurando oferendas.
E o mais importante: cantava! Zélia esperava o mês de maio, aguardava os dias de Nossa Senhora com uma vontade presa na garganta. A menina franzina seria transformada em anjo.
Na véspera do dia da procissão ela nem podia dormir. Ficava esperando a voz de sua mãe, Maria Dolores: levanta fia, o dia já clareô, seu leite tá pronto.
E a menina pegava sua xícara e ia tomar o café da manhã no quintal, debaixo do céu esbranquiçado, ainda enfumaçado.
Preparava-se para o ensaio e já vestida de anjo levantava vôo rua acima. A melhor parte era sempre o ensaio: repetir, repetir e repetir os cânticos. Enfim, o pássaro preso em sua garganta preparava-se para a mais longa viagem: ave, ave, ave maria! Terço enrolado no punho, flor no cabelo e mesmo um cadim desafinada, Zélia brilhava. Nesta época tinha voz forte, ocupava todos os cantos da igreja e ocuparia a rua.
O andor colocava-se diante de todos, carregado pelas Filhas de Maria. Logo atrás as meninas, feito anjos, davam início à procissão: ave, ave, ave maria!! A cidade toda só tinha olhos e ouvidos para elas. Somente no mês de maio poderiam ser as estrelas da rua: vinde anjos trazer flores! Caminhavam por cima do chão enfeitado: pétalas, folhas, serragens, coisas coloridas para realçar a passagem do branco.
Em seu último ano como anjo Zélia acordou com o rosto pintado, cheio de pontinhos vermelhos: estava com sarampo. Ela não podia compreender: anjo tem sarampo?! Foi seu primeiro enfrentamento com a realidade, sua primeira decepção, sua primeira grande dúvida. Teve febre alta, delirou: as asas brancas foram transformadas em pontas de faca: primeira revolução de Zélia.
Mais tarde faria coro com Joana, Rosa, Maria Bonita, Bárbara e tantas outras Marias. Luiza, Olga, Clarisse, Mercedes, Adélia, Cecília. Anjos com arco, flecha, rosas, espadas, ventres e lábios. Marilenas e Iracemas. Asas, facas e flores. Ave, ave, ave! O pássaro preso na garganta solta-se de diversas formas e sempre vôa.
Mesmo desconfiada de sua pequena desafinação, mesmo com a voz um pouco reprimida, não mais tão forte, nem brilhante: canta, canta e canta.
*Mas, ainda se pode ouvir a música/ meu colo espera seus versos/ minha mão espera seus pássaros/ uns pousam, outros passam/ outros apenas avoam, avoam, avoam.

* Trecho da canção revoada de Consuelo de Paula (inédita).

www.consuelodepaula.com.br
consuelodepaula@uol.com.br



Escrito por Consuelo de Paula às 14h20
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