Túlio e a arte da boemia
Seu primeiro desejo era ser sanfoneiro. Menino magrinho e muito quieto na aparência. Só na aparência. Quando a casa dava conta da presença dele é porque havia colocado fogo na garagem ou trocado a bicicleta da irmã por um coelho, ou pintado a jaqueta preta com o nome de Noel Rosa. Neste último caso estou com ele! Não encontrou nenhum professor de sanfona. Resolveu ler apostilas de literatura. Sabia poemas inteiros dos inconfidentes. Quando não estava lendo poesia é porque estava vendendo michiricas no campo de futebol da pequena cidade do interior de Minas Gerais. Tangerinas estas que ele havia apanhado das árvores da casa da avó que vigiava as frutas - quase dia e noite - para garantir que chegassem até a maturidade. Mas, pra ele podiam estar verdolengas mesmo, pois seriam apreciadas com muito sal! Seu segundo desejo foi ser poeta. De preferência um poeta de um tempo passado e longínquo. Com o charme daqueles tempos. E como o tempo não volta, ele desistiu de sua segunda profissão. Bárbara Heliodora não havia mais, Marília de Dirceu, nem barroco, nem romantismo. Resolveu então que iria ser boêmio. E dos bons! Daqueles que tocam caixa de fósforos e tudo! Pulam a janela, fogem da escola. Mas são bons sinuqueiros, têm alma de poeta e bom gosto musical, isso ninguém pode negar. Sabia todas as letras das canções interpretadas por Nelson Gonçalves, Vicente Celestino, Silvio Caldas. Sabia também os sambas do Noel Rosa, Ciro Monteiro e Ataulfo Alves. Ah, deste ele sabia toda a biografia e de tanto declamá-la em frente ao espelho, foi ser farmacêutico. Bem, esta é outra história. Coisa de família... Além de ser fã dos boêmios e dos poetas, é fã de seu pai que também é farmacêutico. Túlio herdou os passos do pai, a dança única inventada pelo Sr Luiz. E Tulinho nasceu no dia quatro de novembro. A noite se apresentava estrelada. A lua se fazia seresteira e a roda de samba amanheceu o dia. Mataram um pobre gato pra fazer tamborim. Mas, um enorme lírio branco nasceu. Um lírio até então nunca visto. Acho que foi um jeito da natureza dizer que nascia um menino batuta, um mineirinho, um brasileiro danado de bom. Que depois de botar fogo na casa seria um moço do bem. Sabem daquelas pessoas que mesmo estando sofrendo transmitem paz? O fogo é por causa das paixões que ele provocaria. E o lírio é por causa do enorme coração que ele tem. Hoje é Titúlio, Dr. Túlio, mano Túlio (nada a ver com hip hop porque ele ainda é Noel) e arrimo de família. O filho de Dona Zélia, o moço amado da vizinhança e das benzedeiras. Não pode ser sanfoneiro, mas deu a volta por cima e uma coisa ninguém pode tirar dele: o prazer de ouvir um bonito samba. Ele sabe admirar e isto é pra poucos. Abram alas que ele sempre vai passar com sua elegância herdada, com o charme renovado dos antepassados e com seu sorriso comedido. Mas, não se iludam com este olhar de anjo, pois todo boêmio é malandro. Lenço branco no bolso e um jeito único, diferente, uma maneira só dele de viver. Acho que encontrou uma forma de estar neste mundo, que às vezes é tão difícil pra quem nasce no dia quatro de novembro, no mesmo dia do nascimento do lírio gigante, debaixo de um céu tão estrelado e querendo ser sanfoneiro. Espero que as lindas músicas que hoje ele ouve, tragam um pouco do mesmo amor que ele as dedica. Pois é, naquele dia nascia um menino nunca visto antes.

Escrito por Consuelo de Paula às 13h27
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